quinta-feira, 21 de maio de 2015

Me deixa ser eu

Gramática normativa
Me deixa escrever do jeito que eu quero!
Me deixa usar pronomes possessivos na segunda pessoa
Quando falo com você!

Gramática normativa
Que tem normas mortas
Gramática normadesativada

Diz pra mim
Te faltou amor?

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Dois segundos

   Pensei em como o tempo é curto.
   Pensei sobre a palavra "curto" e sobre a palavra "tempo". Curtir o tempo ou ficar pensando em como o tempo é curto? Olhei pela janela do carro e tentei entender como a graduação da cor verde nos matos podia ser tão perfeita conforme o veículo corria pela estrada. Lembrei também de obras de arte que via quando era criança e tentava copiá-las em quadros meus na aula de pintura em tela.
   Aquele momento da viagem era um armistício na minha vida. Era só eu e a estrada. Consegui retroceder em tantos momentos, lembranças, cantigas, cartas... Consegui pegar esses conceitos e aplicá-los no meu presente e em como isso se refletiria no meu futuro. Pisquei os olhos e me lembrei que aquele piscar já virou passado e o presente é muito relativo. O presente é como o piscar de olhos: é aquele momento que os cílios se encontram depois do fechar e antes do abrir das pálpebras. Tão breve que chega a ser automático.
   Aquela criança que vi tentava reproduzir a graduação do verde das árvores quando pintava seus quadros, mas era em vão. A mente era muito jovem para representar na criação as combinações das cores. Pouco sabia de tinta, pouco sabia de vida. Sentia um desassossego quando via o trabalho mal feito e pensava "você não serve para isso." Uma criança conformada, como manda os bons costumes. E foi assim que resolvi abandonar o curso de pintura em tela... O que foi um alívio para o bolso dos meus pais.
   Não posso dizer que mudei muita coisa nesse sentido. O horizonte espreita meus olhos, me faz exorcizar o fantasma que existe atrás desses espelhos da alma. A verdade nua e crua é tão cruel e misteriosa, de uma forma tão atraente, que vem de encontro comigo na velocidade semelhante do bater de asas de um beija-flor. 
  Ou seria o bater de asas de uma borboleta? Talvez significasse metamorfose. Será que causa mesmo um furacão do outro lado do mundo? Se é verdade não sei, borboleta... Mas mal consigo lhe dizer o tamanho do furacão que causou em mim.
   Tantos animais ali nos matos que começo a refletir sobre a cadeia alimentar natural. Acredito plenamente que todos os predadores são presas, mesmo que isso não esteja claro para eles. Todos são capturados, acorrentados, falsamente condicionados... Criados para o abate. Eu não sou presa e nem predadora. Sou aquela que desacorrenta, que liberta. Sou inteiramente questionadora. Se as perguntas não te libertam, te matam... e a morte não deixa de ser uma forma de liberdade.
   O automóvel em movimento passou perto de uma plantação de laranjas. Aqueles pontinhos laranjas do lado do horizonte principal me remeteu à infância. Novamente às minhas primaveras, aos cachos loiros e aos questionamentos dignos de uma Emília de Lobato. A lembrança daquela menina deitada na terra... A visão dessa menina 50 anos depois, já de cabelos brancos, só que engolida pela mesma terra. O cheiro cítrico (embora naquela época eu nem tivesse noção do que era cítrico) sentido pelo olfato infantil, nunca deixou a minha memória. Olhei para aquelas árvores lá do lado e pude sentir o cheiro novamente. 
   Última vez que senti esse cheiro foi quando li um conto chamado "Tangerine-girl". Talvez eu sinta de novo quando ler isso que escrevi, lá no inverno da vida... Quando estiver na curva extrema do caminho extremo. Talvez você consiga sentir também nesse piscar de olhos, embora não esteja (ou esteja) no fim do horizonte.
  O vento soprou forte nos pássaros e as asas deles iam batendo e parando... Batendo e parando... Batendo e... Lembrei do movimento dos cabelos da antiga e da nova idealização de amor. Dos meus próprios cabelos e da sensação de tê-los em mãos terceiras. Mãos segundas. Duas mãos, dois segredos, dois espelhos, dois segundos.
   É interessante pensar sobre o fim da estrada. O que encontrarei quando chegar lá? Cochilei no carro minutos antes de começar a escrever sobre o percurso do caminho. Sonhei que quando o carro parou no destino que escolhi, desci em um cemitério. Haviam pessoas conhecidas, muitas carregavam no rosto uma expressão sombria. Outras ao invés de expressão, tinham máscaras. O resto delas não tinham nem mesmo olhos e bocas. Caminhando entre eles, ninguém parecia me notar. Aproximei-me para ver quem estava no caixão.
   Minha primeira reação foi paralisar. Senti que minhas mãos gelavam e que minha pele havia perdido a cor. Olhei novamente para os rostos ao meu redor e de volta para o defunto. Comecei a chorar quando reconheci que aquilo era realmente verdade... O velório era meu. Eu estava no caixão. Eu morri. 
    Interferir no quadro. Jogar água na tinta fresca, manchar a arte, afogar o quadro na querosene e atirar fogo nele. É o que faço todos os dias lá fora, nas relações antropomórficas e dentro de mim.
   Uma tela em branco. Um arsenal de tintas. E o carro não quer parar para eu descer e respirar. Nem mesmo por um segundo. 

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Insistência

Eu deitada e assombrada do lado da janela
A imaginação é fumaça na névoa do rio
Eu aqueci suas mãos com fogo
Enquanto as minhas estavam frias
Na água

Sombras, ombros e umbras
A luz do poste está atrás dos galhos das árvores
E o vento é movimento
Que faz os galhos trepidarem

Por que a luz quer as árvores?
Por que o fogo quer as mãos?
Por que não há cruzes nos alpes?

A luz pisca pisca no meu rosto aqui na sombra
Parece até código morse conversando comigo
Eu pergunto para ela essas coisas de crises
Ela me responde impiedosa
"Mas isso já não está claro?"

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Abril completamente sem rimas

Quanta vida não existe dentro de um adolescente?
Quanta energia que vibra!
Quanta alegria que colore!
Quanta tristeza...

Quanta vida existe dentro de dois adolescentes?
Poderia escrever até em redondilhas, embora não as saiba.
Mas eu aprenderia! Somente para descrever as coisas que vi
com a pele, com o cabelo, com os dedos.
Quanta coisa ouvi você dizer com a sua língua
na minha língua?
Nossa! Quanta sinestesia, quanto exagero!

Quanta vida resiste dentro da minha adolescência?
Nas viradas da noite, no topo do prédio,
no pôr do sol quando o céu não é empecilho.
No som da caixa acústica do meu violão de carne e
até nos meus quarenta e tantos anos de vida engavetada
no meu corpo de vinte, gaivota.



quinta-feira, 16 de abril de 2015

Declaração de amor

Minha flor minha flor minha flor.
Minha prímula meu pelargônio meu gladíolo meu botão-de-ouro.
Minha peônia.
Minha cinerária minha calêndula minha boca-de-leão.
Minha gérbera.
Minha clívia.
Meu cimbídio.
Flor flor flor.
Floramarílis. floranêmona. florazálea. clematite minha.
Catléia delfínio estrelítzia.
Minha hortensegerânea.
Ah, meu nenúfar. rododendro e crisântemo e junquilho meus. meu ciclâmen. macieira-minha-do-japão.
Calceolária minha.
Daliabegônia minha. forsitiaíris tuliparrosa minhas.
Violeta... amor-mais-que-perfeito.
Minha urze. meu cravo-pessoal-de-defunto.
Minha corola sem cor e nome no chão de minha morte.

Carlos Drummond de Andrade.

Music and lyrics

“A minha vida
Eu preciso mudar todo dia
Pra escapar
Da rotina dos meus desejos
Por seus beijos”

Concerto:
Eu ouvi

O telefone tocou
Na mente fantasia
Você me ligou
Naquela tarde vazia
E me valeu o dia”
Eu o vi,
Contorno.
Mil acasos apontam a direção
Desvio de rota é tão normal
Mil acasos me levam a você
No mundo concreto ou virtual
Me levam a você
De um jeito desigual”
Ele a via
Na viela
Tenta achar que não é assim tão mal
Exercita a paciência
Guarda os pulsos pro final

Saída de emergência”
Eu o vi;
Eu a vi.

“Eu vou te jogar
Num pano de guardar confetes”
A via mar,
Meu deus...
Já estou pedindo que
Passe um tempo, passe lá
Passe o mal com os meus lençóis
Passe agora, passe enfim
Um momento prá ficarmos sós...”
Vir a mar quem?
Maré quebrar
Ah coração teu engano foi esperar por um bem
De um coração leviano que nunca será de ninguém”
Maré destruir
Maré afogar
orrub é êcov
ohlarac arp orrub
atup aus uc on ramot iav
orrub é êcov
Maré morrer
Maré fênix
Diz pra eu ficar muda faz cara de mistério
Tira essa bermuda que eu quero você sério

Tramas do sucesso mundo particular
Solos de guitarra não vão me conquistar”
Mar é 
Devoração.
Vamos fugir deste lugar, baby!
Vamos fugir
Tô cansado de esperar
Que você me carregue”
Ah... 
A mar, 
Amar
Pensando como isto costumava ser
Ela ainda se lembra de tempos como estes?
Para pensar novamente em nós? Eu me lembro."
Amor
A mor-te,
Morte.

“E me devora vivo ali na mesma hora me diz no ouvido a vida
é devoração...”
Ninguem sobe;
Fall in love
Se morre, revive-se
Fênix

Teus lábios são labirintos
Que atraem os meus instintos mais sacanas
E o teu olhar sempre distante sempre me engana

Eu que falei nem pensar
Agora me arrependo roendo as unhas
Frágeis testemunhas
De um crime sem perdão

Mas eu falei sem pensar
Coração na mão
Como o refrão de um bolero
Eu fui sincero como não se pode ser

E um erro assim, tão vulgar
Nos persegue a noite inteira
E quando acaba a bebedeira

Ele consegue nos achar

querer ser maré 
em outra praia.

Assim ela já vai
Achar o cara que lhe queira
Como você não quis fazer
Sim, eu sei que ela só vai
Achar alguém pra vida inteira
Como você não quis

Tão fácil perceber
Que a sorte escolheu você
E você cego, nem nota
Quando tudo ainda é nada
Quando o dia é madrugada
Você gastou sua cota

Eu não posso te ajudar
Esse caminho não há outro
Que por você faça
Eu queria insistir
Mas o caminho só existe
Quando você passa

Quando muito ainda é pouco
Você quer infantil e louco
Um sol acima do sol
Mas quando sempre
É sempre nunca
Quando ao lado ainda
É muito mais longe
Que qualquer lugar

Um dia ela já vai
Achar o cara que lhe queira
Como você não quis fazer
Sim, eu sei que ela só vai
Achar alguém pra vida inteira
Como você não quis

Se a sorte lhe sorriu
Porque não sorrir de volta?
Você nunca olha a sua volta
Não quero estar sendo mau
Moralista ou banal
Aqui está o que me afligia

Um dia ela já vai
Achar o cara que lhe queira
Como você não quis fazer
Sim, eu sei que ela só vai
Achar alguém pra vida inteira
Como você não quis

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Quem é você?

-- Quem é você?
-- Quem sou agora é você, mas já não sou mais. Sou possibilidade, construção; inacabado, continuado, exposto, modificado.

-- Quem é você?
-- Seu passado. Quem te disseram para ser. Sua escolha de roupa numa segunda-feira, seu filme monótono no domingo. A música que cantava quando brincava no balanço do fundo de casa. Sua refeição de ontem, o som que saia de dentro do violão do seu pai. Seu cabelo que deixou de pentear hoje e o choro pela ausência da mãe no primeiro dia de aula.

-- Quem é você?
-- Suas escolhas, a voz do seu pensamento. Não sou o outro, mas o outro me contém. "Minhas palavras não são somente minhas." Não sou linha reta, sou espiral.

-- Quem é você?
-- Sua ausência e presença. Sua leitura de mundo e de música. Seu tudo e seu nada. Sua ressaca de sono depois da embriaguez de ideias. Sua insônia na ausência de si mesmo. Sua roda cheia de amigos e sua solidão rodeada de fantasmas.

-- Quem é você?
-- Seu espelho do banheiro. Seu rosto no mar. O reflexo nos olhos dos outros. Continuarei sendo esses rabiscos no papel, mesmo quando eu deixar de ser você.

-- Será?
-- Será.
-- Serei.