quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Nostalgia de Amélia

     Uma noite fria é um bom cenário para começar a contar essa história. Vamos falar sobre Amélia, uma mulher que sonhava demais. Sempre muito inteligente e procurando saber o máximo sobre as pessoas, ela era uma garota feliz.
     Amélia passava horas do dia olhando para as coisas simples da vida, como uma flor em sua beleza extrema, procurando conhecer todos os odores, cores e aspectos de tudo que a interessava. Ela também tinha muitos defeitos, e o maior deles era o de sentir-se culpada por tudo.
     Era 23:20 e Amélia estava nesse momento lendo livros de romance, seus preferidos, porque sempre tem um significado em cada frase e ela adorava passar horas analisando e tentando descobrir a vida dos personagens. Porém, havia um personagem que ela não conseguia entender. Ela sentia ódio, repugnava-o. Ele era um alcoólatra. Nesse exato momento, ela não estava se concentrando na leitura mais. "Por quê?" perguntava-se. Tudo o que ela podia pensar era naquele grande vazio que não havia forma. Havia algo errado.
     "Amélia, cheguei!" - disse Miguel, seu namorado. Sim, ela era feliz. Possuia tudo o que uma mulher gostaria de ter. Morava em uma casa bonita, confortável, um namorado bom e que ela amava muito. Então, "por quê?" ela se perguntava, por que sentia como se houvesse algo errado?
     Miguel entrou, beijou-a e sentou-se ao sofá. Amélia levantou-se e com todo aquele jeito de mulher amável foi pegar um copo de água para seu namorado. Algo não estava certo. Quando ela alcançou o alto do armário para pegar um copo, subitamente ela pôde ver o que a havia pertubado tanto. Lá jazia uma garrafa de uísque.
     Naquele momento, não existia noção de tempo. Uma nostalgia enorme de repente a encheu de lembranças. Lembranças do passado, de sua familia, de seu pai alcoólatra. Toda aquela raiva, aquela tristeza de outrém a preencheu. De repente, não mais que de repente, sua vida passou diante de seus olhos.
     Era tarde, ela estava assistindo televisão e dando risadas com os personagens que ela não entendia, mas mesmo assim ria. Ela sabia que estava excedendo o horário de ir para a cama, mas como ela poderia se controlar? Tinha apenas 8 anos. Seu pai então, chega em casa e ela se alegra com a visão do pai que tanto sentia saudades e enfim diz "Papai, papai! Venha ver o que aconteceu com esse cara na TV!" mas tudo o que o pai fez foi gritar com ela e mandá-la para o quarto. "Mas papai, estava com muitas saudades do senhor!" então como num ato cruel, ele desfere um tapa em seu rosto e além da dor, o que ela pôde sentir era seu hálito. Hálito azedo e um jeito torto de se manter. Não era seu paizinho naquele momento. Mas o que a pequena Amélia poderia saber naquela idade?
     Então, cheirando aquela garrafa e inevitavelmente lembrando-se do cheiro do hálito de seu pai, Amélia possessa, quebrou a garrafa na pia da cozinha. Nesse ato de impulso, ela cortou a mão. Chorando descontrolada, sentou-se no chão da cozinha. Miguel ouvindo o barulho e o choro, veio correndo ao encontro de sua namorada, e a segurou em seus braços, acalmando-a e beijando-a. Ele não ousou ao menos perguntar a ela o que se passava, pois ele ja sabia. Ela era assim.
     Amélia não pôde deixar de perceber a doçura e compreensão de Miguel naquele momento. Aquele abraço reconfortante, como aqueles que a criança recebe quando está com medo do monstro embaixo da cama. Ela soube naquele instante que havia bondade em seu pai - já que havia em Miguel-, que tudo o que restava dele, na verdade não era ele. Não havia nada que pudesse ser feito.
     Como um refúgio, nos braços de Miguel, ela pôde amenizar sua dor passada e nela surgiu uma esperança. O futuro não foi arruinado, havia bondade ali. Havia amor, felicidade e compreensão. Ela ia de ser feliz, pensava, ia de ser feliz pois ela amava Miguel e ele a entendia. Ele entendia, e ele era sua válvula de escape. Ele era, nada mais do que a bondade em um mundo sem volta.