segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Vômito do moribundo

     Era a hora do pesadelo e isso eu conseguia sentir. Sentia no vento, na água, na terra. Quão mágico seria contemplar os primeiros momentos do desfalecer de um ser humano? A alma deixando o corpo, o corpo tornando-se branco e gélido. Pálida é a cor dessa história.
     Por motivos pessoais, não revelarei meu nome. Sempre fui enigmática e misteriosa, e as coisas, as pequenas coisas que me prendiam a atenção não eram as coisas que as outras pessoas poderiam julgar normal. Uma flor morta, uma vela derretida, a chuva na janela, a escuridão em uma cova, era o que me chamava atenção. Passava horas contemplando a escuridão de um quarto, de um objeto, de uma palavra.
     O que mais me trazia depressão e repugna era o velho senhor que morava ao lado de minha casa. Ele era sozinho. Não tinha filhos ou família, tudo o que ele tinha era sua antiquada mania de ficar olhando para minha casa, diariamente com aqueles olhos... Sim, olhos que tiravam minha sanidade. Como podiam aqueles olhos olhar através de mim? Me incomodavam.
     Vida monótona tinha o velho senhor. Com sua pele toda flácida e caída, seu jeito lento e pacífico de fazer as coisas, suas velhas mãos imundas de toda a sujeira que habita esse mundo. Enojava-me o velho e suas manias, seu modo de encarar minha casa, meus olhos.
     Cheguei em casa uma tarde do meu passeio diário à biblioteca quando percebi que o velho não passava bem. Cheguei perto, mais perto e percebi que aos poucos ele desfalecia. O que poderia eu fazer, meu Deus? Chamei-o, centenas, centenas de vezes. Sua cabeça estava penca para baixo, seus olhos fechavam-se e abriam-se num leve demorar de um moribundo. Aqueles momentos... Como poderei descrever aqueles momentos sentada ao lado dele?
     Estava assustada, profundamente assustada, porém algo ali me chamava atenção. Deveria eu chamar o socorro de um médico ou esperar para ver o velho dar o último suspiro? A morte, oh, a morte em sua mais formosa beleza podre... Deus, eu queria, como queria gritar por ajuda! Mas algo me impedia. Algo inevitável, aquela vontade de contemplar pela primeira vez uma morte tão fresca, tão quente, tão escura...
     Tentei contar a pulsação do velho e estava diminuindo. Sim! Estavam desaparecendo, cada vez mais, e mais e mais. E que vontade de gritar! Gritar bem alto "A morte! Morte que é o grande segredo, que é o grande mistério! Dói morrer? Dói?" Em meu mais límpido momento de excitação e culpa, a pulsação do velho começou a voltar. Quando menos esperava, ele abriu os olhos e com sua boca enrugada e aberta como o de um deficiente, ele disse "estou vivo."
     Imediatamente liguei para a ambulância, e antes que pudessem chegar, contemplei o vômito mais podre e impuro que dá o moribundo em seu leito de morte. Contemplei e inalei aquele odor mais escuro e mortífero. Todas as palavras que poderia dizer aqui, nunca chegará realmente a minha idéia de morte, que ocorreu-me naquele momento.  A morte em sua mais terrível forma e o velho em sua mais terrível sina.
     Quando o velho foi atendido e entrei em casa, tomei minha dose diária de uísque e sentei-me junto a lareira. Não pude tomar banho, oh, não pude. Como poderia? Aquela sujeira toda que envolvia-me na mais puramente forma da realidade de todos nós... Da realidade que somos e que desejamos em nossos mais profundos prazeres humanos. A morte, a porta para a dor infinita ou para o descanso eterno.
     Fiquei conhecida durante muito tempo pela mulher que salvou o velho que não tinha família, e ele muitas vezes me agradeceu por tê-lo salvo. Sim, ele não se lembrava de nada, estava inconsciente. Mas eu lembro, sim, lembro vivamente de tudo o que senti naqueles momentos.
     O velho ainda continua olhando para minha antiga velha casa, com aquele olhar condenador e com todo o seu jeito imundo de ser. E eu? Bem, estou aqui, trancada nessa camisa de força, nesse hospício tão cruel quanto os olhos do velho.