segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Furacão-abismo

  Era tarde e ela sorria um riso vigiado, contido e observado pelo abismo. Agia naturalmente como se não houvesse queda livre. Duas palavras e um olhar fixo em pessoas que ela não via, que não enxergava porque tinha medo daquele penhasco mortal. Em alguns momentos - Meu Deus, olhei para ele - e lá estava, completamente abismo. Desviava o olhar rapidamente, mas já estava engolfada em tanto vendaval e ventania que era só confusão.
   Voltava a observar rostos que abriam e fechavam a boca em um contínuo ressoar de palavras desconexas e ela sorria. Por quê? Ela era diferente porque é difícil encontrar alguém que sorri diante do furacão-abismo, e ela sorria. 
   - Opa, olhei novamente! - E lá estava, aquele furacão de força centrífuga que a afogava em tanto azul insano. Só podia ser insanidade, estava ficando completamente louca. Sabia que uma hora não poderia mais desviar o olhar, tinha que olhar diretamente para a sua ansiedade e seu medo.
   Então de repente o que era vento centrífugo e desespero virou abismo sólido e ele pôde tocá-la. E o que era medo virou alívio e o que era ventania dissipou-se em ar gelado. Não podia acreditar naquilo que acontecia, ela pôde encostar no que havia sido apenas uma ideia. A ideia criou solidez e fez-se palpável, escuro, quente.
   Ela pegou o abismo e guardou-o na caixa de sonhos atrás da casa, aquela mesma caixa que nunca era aberta para marcar o que foi realizado. Nenhum deles era. - Sonho?
   
 

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Infância - Carlos Drummond de Andrade

Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé,
comprida história que não acaba mais.

No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
a ninar nos longes da senzala - e nunca se esqueceu
chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom.

Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:
- Psiu... Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro... que fundo!

Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.

E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

A bondade humana

     Ricardo era um sujeito rico de cerca de 45 anos de idade. Porte médio de olhos escuros, costumava fazer sempre o mesmo trajeto de sua casa ao trabalho. Na realidade, nada tornava Ricardo um sujeito extraordinário, que o diferenciasse dos outros paulistanos. Mesma atitude arrogante e desconfiada, estando sempre com pressa de fazer as coisas.
     Era tanta pressa que todos os dias ele passava na Rua das Graças indo para o serviço na fábrica de parafusos em que ele era o dono, e nada reparava no cenário. Talvez reparasse, contudo, uma ou outra nova construção que se fazia em benefício ao capitalismo moderno. "Globalização é poder, poder é viver como um deus" pensava Ricardo consigo mesmo. Ele tinha todas as certezas do mundo que com dinheiro ele era superior a qualquer ser humano vivente na terra.
     Não podia-se dizer que ele era uma pessoa ruim. Nada disso. Ele era um trabalhador comum como todos os outros, era até bondoso com seus empregados: "nada de aumento para eles, não senhor. Se dermos aumento, levaremos prejuízo na empresa. Aumentem o serviço e diminuem o salário." Ricardo também era uma pessoa muito caridosa, sempre que via um desabrigado ele nunca lhes dava esmola: "Se todas as pessoas resolvessem jogar-lhes moeda, jamais procurariam emprego e não contribuiriam com o crescimento econômico do país. As doenças que esses mendigos malditos inventam são só desculpa para continuar na vadiagem" pensava consigo mesmo.
     Ele não tinha filhos e nem era casado. Era muito difícil conhecer uma mulher decente nos dias atuais e ele não era o tipo do cara considerado atraente. Mulher para ele tinha que ser completamente submissa. Onde já se viu essas mulheres dos dias de hoje trabalharem e quererem direitos iguais? O mundo só poderia estar perdido mesmo, lugar de mulher sempre foi em casa cuidando dos interesses pessoais de seus respectivos maridos.
     Em um desses dias passando pela Rua das Graças, avistou na frente da mercearia dos irmãos Rodrigues, um menino de aproximadamente uns 13 anos e um filhote de cachorro. O menino estava com um semblante abatido. Era muito magro e estava muito sujo. Suas roupas estavam rasgadas e todos ao redor dele pareciam não se importar com sua existência. O cachorro por sua vez, era muito pequeno, provavelmente havia sido parido há uns poucos meses e sua mãe cadela havia sido atropelada ou morta de doença. Porém pouco importava o cão, visto que cachorro não tem alma e nem sentimento.
     Alguma coisa naquela visão de pobreza mexeu com Ricardo. Resolveu ir ao encontro do menino para perguntar-lhe onde estavam os seus pais. Aproximando-se, percebeu que o garoto tinha marcas de espancamento na maior parte do corpo.
     - Com licença garoto, eu gostaria de saber onde estão seus pais agora. - Perguntou Ricardo muito chocado com o odor de podre que o garoto exalava.
     - Nunca soube do meu pai não sinhô. Minha mãe morreu de doença faz uns 2 anos.
     - Mas quem é que cuida de você? - Perguntou Ricardo já muito assustado.
     - Meu deus jesus é quem cuida. Durmo na frente da igreja Santo Expedito e lá eles não finge que to invisível.
     Depois que passou aquela comoção passageira, Ricardo começou a pensar direito novamente. "Preciso mesmo de um herdeiro, e um menino de rua jamais teria a audácia de me passar para trás." penso consigo. Convidou o menino para morar com ele, e o ofereceu a oportunidade de estudar e ter um emprego digno e condições dignas de vida para um ser humano. O menino aceitou-lhe de bom grado.
     Chegando na casa do seu novo pai, o menino quis chorar. Nunca que havia estado em um lugar tão bonito e acolhedor. A casa era bem limpinha, havia quadros nas paredes e sofás pela sala. No quarto, pôde encontrar uma cama bem feitinha e muito gostosa de se dormir. Nesses 10 anos que se seguira, o menino agora chamado de Renato, havia estudado nas melhores escolas e era amigo das melhores pessoas.
     
                                                                         *
                        
 Criado nos melhores costumes, Renato já tinha o hábito de contar mentiras e ganhar vantagem com isso. Era um pequeno gênio diabólico - vangloriava-se o seu pai adotivo. Seus amigos eram a melhor companhia que podia uma pessoa ter. Criavam juntos discursos políticos para a escola, humilhavam o gordinho da turma juntos, e até aprenderam juntos os valores de ser um jovem rico.
     Certa noite quando Ricardo cochilou lendo o Jornal Diário na poltrona, Renato ficou observando o pai em um silêncio jovial. Pensava: "os seres humanos tornarão esse mundo riquíssimo, e se alguém vai fazer diferença naquela fábrica de parafusos sou eu. Pra que esperar até a morte desse velho?" 
     Ricardo já beirando os seus 56 anos de idade, havia adquirido algumas doenças pelas quais não tinha em sua juventude. Colesterol alto e problemas cardíacos era um exemplo deles. Naquela noite em que dormia, sonhava que estava na presidência do Brasil. Que maravilha! Vivia em uma casa feita de ouro e havia muitas mulheres que o satisfaziam sexualmente. De repente o ouro começou a perder o brilho, as mulheres começaram a perder os rostos. Ricardo começou a perder o ar e, pouco a pouco, foi tudo virando escuridão até que não existisse mais nada, nem mesmo consciência. 
                                                                      
                                                                      **

     Era um dia chuvoso quando o corpo flácido e velho de Ricardo estava sendo sepultado. Amigos da família iam tristemente dar os pêsames ao filho órfão e herdeiro da fábrica de parafusos. "Sinto muito pela morte trágica e natural do seu pai, garoto. Saiba que encontrará em minha família a sua família também" diziam os amigos interesseiros de Ricardo. 
     Renato assumiu a fábrica e tornou-se uma pessoa ainda melhor que seu pai. Um melhor chefe também. Demitiu inúmeros empregados pobres, comprou ações em outras empresas fora do país como por exemplo energia nuclear, armas e bombas, automóveis e cigarros. "O mundo sem dúvida seria um lugar melhor se existissem mais pessoas como eu" pensava Renato.
     Aquele filhote de cachorro que pertencia ao menino 10 anos antes, ainda vive nas ruas de São Paulo. Se alguém passar na frente da antiga mercearia dos irmãos Rodrigues - que lá é agora um mercado multinacional - poderá vê-lo ainda mais miserável do que era antes. É Julho e faz frio. Tem uma criança pouco mais nova com o cachorro lá. O vira-lata dorme em cima da criança na tentativa de aquecê-lo. Passa um homem, e avista ambos. Apenas a criança é adotada, afinal pouco importava o cão, visto que cachorro não tem alma e nem sentimento.