quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Ponto de ônibus

      Estava muito quente. Já fazia uns trinta minutos que eu estava em pé esperando o ônibus chegar. Mente anuviada de pensamentos poluídos. Olho para a esquerda e vejo lotação de pessoas, olho para frente e vejo trânsito parado e pessoas sofrendo com o calor assim como eu. À direita vejo carros vindo, motos vindo, vans vindo, pessoas vindo, menos o meu ônibus.
     -- Água, água fresquinha, água geladinha por apenas doi real! -- diz o adolescente vendendo água no farol. 
     -- Ô moça, psiu! Tudo bem gatinha? -- diz o rapaz que está no banco do passageiro naquele transito parado na minha frente. Nada do ônibus. 
     Apoio o corpo na perna esquerda, espero uns dois minutos, apoio o corpo na perna direita, espero mais dois minutos. A bolsa começa a pesar-me nos ombros e a barriga começa a roncar em um desespero bestial. 
     Lá na esquina vi uma senhora andando descalça na rua com uma garrafa de pinga. Fico pensando com meus botões se os pés dela não ficaram machucados. A calçada deveria estar muito quente mesmo! Mas as feições da mulher não pareciam incomodadas. Pareciam talvez conformadas, talvez um vácuo de esperanças, talvez um troco para comer.
     Do lado dela passou um carro que talvez fosse um Maserati. Vidros meio abertos, meio fechados, consegui ver um senhor meia idade usando um Ray-Ban com uma latinha de Coca-Cola na mão. Não pude deixar de notar a insatisfação no rosto dele de estar parado no trânsito de um bairro tão pouco privilegiado. Mas o que é que ele foi fazer lá afinal? Estava perdido? Provavelmente não. No meio daquelas malocas sempre tinha um prédio multinacional importante. 
     Tanta pobreza, mas o povo é feliz! Começo a pensar em toda a questão da violência na cidade, dos roubos, dos assaltos, do descaso. Crianças marginalizadas, adolescência marginalizada e maturidade braçal. Meu deus, será que o homem muda um dia? Será que ainda existem pessoas boas? Começo a entender que não, não há pessoas boas. O que existe é o dinheiro e o interesse nele, que qualquer nota de cem reais vale mais do que aquelas pessoas na visão da elite que governa tudo.
     Nem percebi que do meu lado tinha uma mulher com uma criança de colo. Despercebidamente meus olhos encontraram o olhar da criança. Aquele olhar de pureza e indiferença, e então aconteceu uma coisa que eu não esperava: o menininho sorriu. Deu uma risadinha para mim achando graça de alguma coisa, aquele riso tão ingênuo que só uma criança consegue dar. 
     Quando dei por mim já estava sorrindo também, sorri para ele e acenei. Olhei para o outro lado e meu ônibus tinha chegado. Eu entrei.

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