Os olhos fitavam meus pés em demasiada
ansiedade. A cabeça baixa demorava nessa posição obediente e submissa. Dos
miolos aos músculos, tudo era uma sinfonia interna de questionamentos e
conflitos incessantes de origem ilusória. Como podia ter tanto medo de uma
coisa que nem estava lá? Talvez medo dos fantasmas de ontem. Os olhos dançantes
nas órbitas de bailarinas morenas de sorriso loiro.
Olhei para frente e foi deslumbrante. Os
fantasmas: todos eles estavam lá. Tudo estava lá. A música clássica e as
cortinas que se abriam e depois se fechavam. O piano tinha um dó maior do que o
dó do mundo. Era épico a forma que os violinos choravam velozes as vozes
veladas no sangue cor vinho dos Josés e Marias que vieram ver o espetáculo essa
noite. As máscaras sorriam olhando para mim. Mascaras minhas?
Na saia rodada da bailarina o mundo
rodava, bailava, dançava, rodopiava em um uníssono sem fim. Tudo era real: o
choro, o riso, o suspiro e o medo. Até os atores que fingiam no palco - na fina
reinterpretação da feliz condição de fênix grega – eram e sentiam-se
verdadeiros.
A lágrima que era para ser fria,
esquentou-se no espelho da alma e rolou pelo meu rosto – igual o tempo presente
que rola na linha do eixo relativo e vira passado – e escorreu para a minha
boca. Senti o gosto dela e tudo desapareceu. A bailarina foi-se embora com a plateia.
A fênix fez as malas e partiu com as máscaras. O mundo continuou girando. Eu
enxuguei a lágrima do rosto, refiz meus passos para criar meus próprios
fantasmas... antes que tudo vire pretérito.

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