segunda-feira, 23 de março de 2015

Antes que vire pretérito



    
     Os olhos fitavam meus pés em demasiada ansiedade. A cabeça baixa demorava nessa posição obediente e submissa. Dos miolos aos músculos, tudo era uma sinfonia interna de questionamentos e conflitos incessantes de origem ilusória. Como podia ter tanto medo de uma coisa que nem estava lá? Talvez medo dos fantasmas de ontem. Os olhos dançantes nas órbitas de bailarinas morenas de sorriso loiro.
     Olhei para frente e foi deslumbrante. Os fantasmas: todos eles estavam lá. Tudo estava lá. A música clássica e as cortinas que se abriam e depois se fechavam. O piano tinha um dó maior do que o dó do mundo. Era épico a forma que os violinos choravam velozes as vozes veladas no sangue cor vinho dos Josés e Marias que vieram ver o espetáculo essa noite. As máscaras sorriam olhando para mim. Mascaras minhas?
     Na saia rodada da bailarina o mundo rodava, bailava, dançava, rodopiava em um uníssono sem fim. Tudo era real: o choro, o riso, o suspiro e o medo. Até os atores que fingiam no palco - na fina reinterpretação da feliz condição de fênix grega – eram e sentiam-se verdadeiros.
     A lágrima que era para ser fria, esquentou-se no espelho da alma e rolou pelo meu rosto – igual o tempo presente que rola na linha do eixo relativo e vira passado – e escorreu para a minha boca. Senti o gosto dela e tudo desapareceu. A bailarina foi-se embora com a plateia. A fênix fez as malas e partiu com as máscaras. O mundo continuou girando. Eu enxuguei a lágrima do rosto, refiz meus passos para criar meus próprios fantasmas... antes que tudo vire pretérito.

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